Cadê a música que estava aqui? (Minervino Wanderley)

Música é puro prazer. Isso é inegável e creio que todos concordam. Já o gosto, é muito pessoal, naturalmente. Por essa razão, esse meu relato é baseado exclusivamente nas minhas memórias e nas minhas preferências, além de não ter a menor intenção assumir o posto de “dono da verdade”, valeu?

Começo falando dos discos. Dos LPs, que fique bem claro, já que disco é LP e CD é CD. Pois é. Hoje, eles (os discos) não existem mais. Ameaçam ressurgir, mas não caem no gosto do povo. Não existe mais o antigo prazer de conhecer o “disco novo” de fulano de tal. E as capas? Cada qual melhor que a outra. A turma não economizava na criatividade.

Mas, “amigo velho” – termo que era a marca registrada do querido Ugo Paiva – posso garantir uma coisa: quem nunca entrou numa loja de discos não sabe o que perdeu. As suas calçadas ficavam apinhadas de cabeludos loucos por música. Ir a uma loja de discos era um programa imperdível, principalmente nas manhãs dos sábados. Por vários motivos.

Lá, encontrávamos figuras que só víamos nesses momentos; com alguns amigos, acertávamos para “curtir um som” – regado a uma birita, que ninguém era de ferro – e conversávamos muito sobre música.

Quando batia 11h, a turma se dispersava para cumprir o ritual do dia: ligar o equipamento de som e ouvir os discos novinhos e, sempre na companhia de amigos, tomar umas cervejas, whisky, rum, o que fosse, e mergulhar naquele mundo cheio de som, sonhos e puro prazer.

Uma loja de discos era algo como se a felicidade estivesse ao alcance das mãos. Olhávamos para as prateleiras lotadas de Lp’s e sentíamos uma gostosa dúvida: o que vamos comprar hoje? Tinha sempre um disco novo do Pink Floyd, The Who, Rolling Stones, Led Zeppelin, Deep Purple… e do que havia de melhor daquela onda de rock que desaguou nos toca-discos na década de 1970. Isso tudo sem falar nas melodias do Moody Blues, e do “rock progressista “do Yes, Emerson, Lake and Palmer, Jethro Tull, etc.

Obs.: por questão de amor incondicional às suas músicas, capas, integrantes, não falo dos Beatles.

E tome música boa!

Aos que eram mais chegados à música brasileira, lhes era dado o prazer de escolher entre Roberto & Erasmo, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Maria Betânia, Gal, MPB4, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Nara Leão, Zé Ramalho, Alceu Valença, Jorge Ben, a incomparável Elis Regina, uma interminável lista. E vejam que ainda tínhamos a Bossa Nova, que nunca saiu de moda. Aliás, o álbum “Sinatra & Jobim”, de 1967, é um dos melhores discos de jazz/bossa nova já produzidos.

E tome música boa!

Para os amantes do jazz, Sinatra estava lá, só olhando quem iria tomar um Jack Daniel’s ouvindo Fly Me To The Moon. Ao seu lado, Bing Crosby, Louis Armstrong, Tony Bennett,Ella Fitzgeral, Nina Simone, Dinah Washington – meu xodó, as Big Bands, Coleman Hawkins, Dizzie Gillespie, Art Blakey, o extraordinário Oscar Peterson, Dexter Gordon, e outros monstros, faziam o mesmo. Sem esquecer, é claro, de Billie Holiday, a melhor das melhores – a ‘Lady Day’, como o saxofonista Lester Young a chamava.

Registre-se que, no caso do jazz, por sua característica, todos os discos eram novos. Sempre que se ouvia uma música, havia algo que não  havíamos percebido na última vez que ouvimos. Isso é maravilhoso!

E tome música boa!

Quando um dos amigos viajava para Rio, São Paulo ou, melhor ainda, para o exterior, era uma angústia só. Mas ninguém tinha saudade do cara que viajou. A gente ficava era esperando as novidades trazidas na bagagem. É verdade! Eram amplificadores McIntosh ou Marantz; toca-discos Technics ou Yamaha; caixas de som  JBL, ou acessórios que só víamos em revistas. Era um barato! – para usar um termo da época.

Pode ser coisa de saudosista, mas não conheço nada que se compare àquele tempo. Parece que a criatividade se foi junto com o passar dos anos. Ou será uma praga dos LPs? A verdade é que, no Brasil, não surgiram substitutos para Chico, Caetano, Gil, Jobim, Vinícius, Jorge Bom, etc. No mundo do rock, reina Sir Paul McCartney do alto dos seus 80 anos. O jazz deu uma renascida com Amy Winehouse, dona de uma espetacular voz, que foi friamente silenciada pelas drogas. “Back to Black” – “Volto ao Luto”. RIP.

Mas nada é pior do que não ter mais lojas de discos. As manhãs de sábado parecem com manhãs de segundas-feiras. Sem a menor graça. Sinto-me órfão dos amigos, fiquei sem referências. Quando quero matar as saudades do rock, me conformo em ver e ouvir os ‘caras’ via YouTube. Não há como comparar. Não dá nem vontade de tomar umas. Já não há um ritual a seguir nem amigos para curtir o som. Tudo insosso. Saudade grande, confesso. Mas vamos em frente porque a tecnologia vem atrás atropelando tudo.

Ficam as lembranças, os amigos da época e a pergunta: cadê a música que estava aqui?

Nota 1 – Sobre as lojas existentes em Natal, não me arrisco a falar nos nomes das lojas e dos seus donos, já que sempre faltarão alguns. Não vou cometer essa injustiça.

Nota 2 – No Rio, tinha a histórica Modern Sound, na Barata Ribeiro. Uma loja completa e de um bom gosto que até hoje só comparável a Tower Records, em São Francisco. Sempre que ia ao Rio passava um bom tempo por lá, batendo papo com seu proprietário, Pedro.

Sempre que surgia alguma novidade ele me ligava ou já mandava pelo correio. Terminamos amigos. Pedro lutou muito, mas sucumbiu à modernidade. Tudo resumido num comunicado que ele mandou. O coração, lógico, ficou apertado, assim como se perdesse um parceiro numa guerra desigual. Confesso que chorei. Vejam:

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Comentário (1)

  • Evaldo Gomes Responder

    Amigo, que texto.. sensacional, é não sensaionalista, como são hoje a maioria de lançamentos de músicas, cantores estranhos, diferentes e ameaçador se disser algo que não agrada a elite musical.
    Amava as capas dos LP de Yes, Roger Dean, as primeiras do Pink, ELP, éramos felizes, sabiam disso??

    27 de junho de 2022 at 08:59

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