EM NOME DO PAI  

 

Por Minervino Wanderley  

Ter um pai é ter um amigo do peito, daqueles que você pode contar em qualquer circunstância. Ter um pai é ter um exemplo a seguir. Ter um pai é ter a certeza da segurança que seu abraço proporciona. Ter um pai é ter histórias para contar sobre seus predicados.  Ter um pai é ter um conselheiro, daqueles que pastoram sua caminhada e corrigem eventuais erros de trajeto. Ter um pai é ter um confidente fiel, daqueles a quem você conta tudo.   

 Ter um pai é o máximo!  

Deve ser, já que isso tudo eu me acostumei a ouvir dos amigos sobre os seus pais. Li livros e assisti a filmes que confirmam tudo isso. Creio que seja tudo assim mesmo. Não posso dizer com convicção, porque perdi o meu quando tinha seis anos. Restaram vagas lembranças, tão desgastadas como as fotos em preto branco guardadas em um álbum e amareladas pelo tempo. Meros papéis.  

 Cresci sem saber o que era chamar pelo pai quando me deparava com uma ameaça. Nunca tive histórias de meu pai para contar nas rodas de amigos. Lembro-me do medo que me rondava quando o Dia dos Pais se aproximava. Com razão. Ora, a quem eu iria dar um beijo e um presente? Quando ia para o Externato, no curso primário, esse dia era angustiante. Imaginem a cena: as crianças com um presente nas mãos de um lado e os pais do outro, cada um aguardando a vez de ser chamado para a entrega. Eu olhava para a frente e papai não estava lá. Meu irmão ou minha irmã mais velha fazia o papel do pai. A vontade era de sair correndo.  

 Até hoje sinto uma espécie de saudade do que não existiu. E que saudade! 

Como sinto saudade… 

…das longas conversas que nunca tivemos, das comemorações que nunca fizemos, e de dores que nunca juntos choramos; de nunca ter tomado umas cervejas com ele. Só nós dois, como fazem os amigos queridos. 

Como sinto saudade…  

…dele nunca estar sentado numa arquibancada qualquer, me vendo jogar futebol e chamando o juiz de ladrão, do jeito que só um pai sabe fazer; dos discos que nunca lhe dei e dos tangos e boleros que nunca ouvimos juntos; dos ternos de linho branco que nunca mandamos fazer e que tanto ele gostava de usar. 

Como sinto saudade… 

…daquele passeio que nunca demos quando tive meu primeiro carro, e da sua expressão que dizia: “Esse menino é fogo!”; de nunca ter ido ao aeroporto buscá-lo de volta das suas viagens, ganhar um abraço apertado e aquela lembrança que eu tanto gostava de receber. 

Como sinto saudade… 

… de nunca ter visto seu sorriso de alegria quando passei naquele concurso do Banco do Brasil ou no vestibular; dos conselhos que nunca me foram por ele dados; de nunca ter chorado no seu ombro – de alegria ou tristeza.  

 Mas Deus, como sabemos, dá o frio conforme o cobertor. E assim foi. Minha mãe, mesmo com seis filhos para criar – eu era o caçula – encontrou tempo para mim. Se fazia presente no meu cotidiano amenizando a dor da ausência que ela sabia que eu, no meu silêncio, sentia. E que mãe e pai ela foi! Cuidou de mim até seu derradeiro dia. Conversávamos muito, mas parece que havia um tácito acordo, e nós nunca falamos de papai. Um beijo, mamãe.  

 Hoje, sem saber o porquê, com o coração apertado, só posso dizer uma coisa: você faz falta, papai. 

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Comentários (23)

  • Cintia Sousa Jaworski Responder

    Simples, mas profundo e verdadeiro!
    Parabéns!!!

    8 de agosto de 2020 at 14:55
  • Ronaldo Rezende Responder

    Parabéns pela sensibilidade, Minerva!

    25 de julho de 2020 at 18:47
  • Paula Ângela Responder

    Belo, Minervino!

    25 de julho de 2020 at 18:45
  • Ione Salem Responder

    Lindo e verdadeiro texto!

    25 de julho de 2020 at 18:40
  • Tânia Araújo Responder

    Lindo e emocionante!

    25 de julho de 2020 at 18:38
  • Beto Coronado Responder

    Muito boa! Nos leva a uma viagem de emoções! Abraço! Obrigado por reativar saudosas lembranças.

    25 de julho de 2020 at 18:35
  • Branquinha Pedroza Responder

    Que texto lindo Minerva. Comigo foi o contrário, Mamãe partiu eu tinha um ano e quatro meses. Papai foi e é minha PAĒ até hoje, ele com 98 (totalmente lúcido) e eu com 58. E cuidou dos 5 tb sozinho. E detalhe: é o nosso melhor amigo.

    25 de julho de 2020 at 10:11
  • Balta Responder

    Poxa MANÉ vc me fez chorar, pois no meu caso foi minha mãe que perdi também com 6 anos e o pior, meu pai nunca foi presente na minha vida pois me deixou com a minha avó

    25 de julho de 2020 at 07:58
  • Eline Conceição Pereira Responder

    Gosto do que você escreve…!!!

    25 de julho de 2020 at 04:58
  • Regina Cely Responder

    Muito linda sua crônica. Parabéns.

    24 de julho de 2020 at 22:08
  • Wilson Cardoso Responder

    Brilhante!

    24 de julho de 2020 at 22:05
  • Cristina Galvão Responder

    Me emocionei com suas palavras tão sinceras.

    24 de julho de 2020 at 22:04
  • Socorro Mariz Responder

    Linda crônica. Parabéns!!! Faz me sentir muita falta do meu também.

    24 de julho de 2020 at 22:00
  • Wilson Bonifácio Responder

    Amigo Minervino, crônica genial. Parabéns!

    24 de julho de 2020 at 21:57
  • João Paulo Responder

    Sempre gosto de ler suas crônicas. Ótimos textos, leitura leve, agradável e deliciosa de se ler.

    24 de julho de 2020 at 21:56
  • Mônica Responder

    Que texto lindo!

    24 de julho de 2020 at 20:56
  • carlos alberto cunha Responder

    Meu caro, a maior marca que você carrega de teu pai é ser um homem de bem reconhecido pelos familiares e amigos. A saudade faz bem. O que dói é não sentir saudades.

    24 de julho de 2020 at 17:23
    • ANTONIO PIPOLO JUNIOR Responder

      Amigo, emocionante suas palavras. Acho que vimos nessas palavras a vida de muitos filhos sem pai. Mas, o mais importante nessa narrativa, foi o reconhecimento da importância de sua mãe nesse contexto. Parabéns pela crônica.

      25 de julho de 2020 at 01:07
  • Ivanilsa Freire da Rocha Responder

    Tive pai presente. Já meus filhos não tiveram. São ossos do ofício.

    24 de julho de 2020 at 17:01

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