EVOLUÇÃO E INVOLUÇÃO

Por Dalton Mello de Andrade

Nesses tempos bicudos que estamos vivendo, tenho pensado muito em meu pai. Era de 1905 e morreu com 89 anos. Não era de muita conversa com os filhos, mas sempre dizia o que pensava e achava certo ou errado o que fazíamos. Discordei dele várias vezes, ficávamos trombudos um com o outro por algum tempo, mas sempre terminávamos nos entendendo.

Comecei a trabalhar com ele desde os 9 anos de idade. Saía da escola e ia direto para o escritório. Trabalhamos juntos até 1964, quando deixei a empresa por outros ares. Já estava na universidade e decidi permanecer nela por tempo integral.

Tudo isso me veio agora a mente por uma simples, mas importante, razão. Ele sempre dizia que “com esse povo que está aí, este país não tem solução”. Mais das vezes, discordava desse julgamento e tentava convencê-lo de que estava exagerando. E aí ele me apontava coisas que estavam erradas. Impostos excessivos, aumento do crime, economia em descenso, políticos não confiáveis. Eu retrucava que não era assim, que ele tinha que olhar e ver que muitas coisas estavam melhorando, apesar de tudo.

A economia, por exemplo, tinha melhorado muito. Antes, importávamos, com dificuldade, de prego a parafuso, hoje já se produziam no Brasil, como muitas outras coisas. Nossa firma, que trabalhava com produtos importados, tinha tido enormes dificuldades. Houve um tempo que até leilão de dólares era feito para se conseguir uma licença de importação e o preço mínimo do dólar variava com o produto a ser importado. Compravam-se os dólares no leilão, aguardava-se a emissão da licença, para só então fazer a importação. Lembro que para arame farpado, o preço mínimo do dólar era um; para whisky, era outro. O governo estipulava e controlava tudo. E eu dizia, já não é mais assim. Ele respondia; em compensação a burocracia e os impostos aumentam todo dia. A insegurança econômica só faz crescer. E nos comparava com a Argentina, com o Uruguai, com economias sólidas. Ele ficaria embasbacado se visse esses países hoje.

Reclamava, e aí com razão, da insegurança, que aumentava a cada dia. Eu não podia argumentar nada, pois era uma evidência palpável. Não tanto quanto hoje, mas já num crescendo constante. Se vivo estivesse hoje, estaria assombrado com o que se passa no país.

Comentava sobre os políticos e a politica e dizia. Observe, veja como em cada nova eleição os eleitos são piores do que os anteriores. Tentava mostrar que os tempos estavam mudando, que aumentara o número de eleitores, que muitos candidatos representavam esse povo que tinha ideias diferentes das nossas e enxergavam nesses seus candidatos políticos que poderiam ajudá-los. Observe o comportamento deles, só têm um interesse, proteger o próprio bolso, retrucava. Só se lembram do povo na hora da eleição. Reconheço hoje que nisso ele tinha total razão. O nível político do país vem caindo a cada nova eleição. Isso é palpável. Não precisa sair do nosso Estado para sentir isso. E esse problema é no país inteiro.

Comparando o nosso país, no entanto, com a América Latina e mesmo com o mundo, observamos que houve um progresso enorme em vários setores, em especial na economia. Que há mais liberdade econômica e menos controles do que naquele tempo, que o país cresceu muito. Nosso problema básico hoje é escolher dirigentes competentes, ter cuidado na escolha dessas pessoas e principalmente acompanhar seu trabalho, para os elegermos de novo ou os descartarmos. Só assim conseguiremos melhorar o país. E fazer desaparecer definitivamente os pensamentos negativos, embora até certo ponto justificados, do velho Júlio Cesar.

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