Gastronomia Sustentável: uma aliada no combate à fome

Número de brasileiros sem ter o que comer tem aumento recorde nos últimos dois anos, assim como o desperdício de alimentos

 

por Amanda Gehlen

A mais recente pesquisa sobre insegurança alimentar no Brasil, publicada no início deste mês pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), revela que 33 milhões de brasileiros passam fome no país. Por outro lado, um levantamento feito pela Organização das Nações Unidas (ONU) mostra o Brasil como um dos países com mais desperdício de comida no mundo, totalizando 27 milhões de toneladas de alimentos por ano. Mas há formas de mudar essa realidade contrastante. Uma delas está facilmente ao nosso alcance: por meio da aplicação da gastronomia sustentável.

Gastronomia sustentável é o processo de cozinhar focando na origem dos ingredientes, como os alimentos são cultivados, os meios pelos quais chegam ao mercado e aos pratos dos consumidores. Nela, o foco é escolher alimentos saudáveis não só ao corpo, mas ao meio ambiente em toda a cadeia produtiva.

A iniciativa é tão importante que, desde 2016, a ONU definiu no calendário o dia 18 de junho como o Dia da Gastronomia Sustentável. Para ter uma ideia do impacto em todo o planeta, cerca de um terço dos alimentos produzidos anualmente para o consumo humano se perde ou é desperdiçado. Isso equivale a cerca de 1,300 bilhões de toneladas de alimentos, de acordo com a Organização da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO).

“O principal papel da Gastronomia Sustentável é promover a sustentabilidade, diminuindo os danos à natureza e auxiliando na melhor distribuição de recursos por meio da produção de alimentos locais, respeito à sazonalidade dos ingredientes, compostagem para produção de hortas orgânicas, garantindo a responsabilidade socioambiental e valorização da cultura local”, explica a gastróloga e mestre em Nutrição, Karini Freire, professora do curso de Gastronomia do UNINASSAU – Centro Universitário Maurício de Nassau Natal.

Ainda de acordo com os dados da ONU, cerca de 60% do desperdício de alimentos no mundo provém do consumo familiar. Por isso, Karine reforça como utilizar a gastronomia sustentável em simples atitudes dentro de casa podem fazer a diferença nesse panorama e, consequentemente, da fome no país. “Ela pode ser aplicada em nossa casa por hábitos simples, mas que fazem toda diferença, como: separação do lixo orgânico e inorgânico, utilizar o alimento em sua totalidade – casca, talo, semente -, cozinhar em quantidades proporcionais para cada refeição e evitar comprar alimentos antes de terminar de utilizar os que já estão na sua geladeira, de forma a evitar o desperdício”, explica.

Os restaurantes também podem e devem focar nas novas oportunidades de sustentabilidade, como, por exemplo, adoção dos princípios da economia circular com produtores e distribuidores locais, implementação de cardápios que minimizem produtos prejudiciais ao meio ambiente, estabelecimento de parceria com outras empresas para melhor gerenciar as relações de concorrência na cadeia de abastecimento alimentar, proibição de plásticos descartáveis e promoção de energia limpa para restaurantes locais. “Com a aplicação da Gastronomia Sustentável nos restaurantes e indústrias, além de reduzir os impactos ambientais, é possível reduzir os custos, com economia de energia, aproveitamento integral dos alimentos, sistema de reaproveitamento de água e separação do lixo para compostagem, por exemplo, garantindo, também, uma consciência ambiental”, complementa a nutricionista.

A gastronomia sustentável se preocupa com práticas que vão além dos nutrientes do alimento. Está relacionada à mudança nos impactos causados pelo consumo alimentar, o uso consciente de produtos em risco de extinção, coleta seletiva e o reaproveitamento de alimentos. “Eliminar o desperdício em todas as etapas, desde o cultivo até o consumo, é fundamental para mais pessoas terem acesso à comida de qualidade todos os dias. Por isso, enfrentar essa problemática é fundamental para avançar na luta contra a insegurança alimentar e deve ser vista como uma prioridade”, reforça Karini.

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