Quando tudo isso passar… (Minervino Wanderley)

Reprodução

 

Será que quando tudo isso passar, voltaremos felizes às nossas rotinas, daremos mais valor às famílias e amigos, estaremos mais tolerantes, seremos solidários, cheios de planos, tudo será um recomeço? Tal qual um novo Éden? Você acha que as coisas serão assim? Eu não!

Penso que quando tudo isso passar, cairemos numa dura realidade. Ficamos dias, semanas, meses e caminhamos para dois anos em reclusão. Encontramo-nos acostumados a não mais estar com familiares e amigos. Criamos intimidade com as nossas televisões de tal maneira que streaming já está no nosso vocabulário e “temporada” só vale para séries.

Nossas saídas de casa são como fugas e, como se fugitivos fôssemos, colocamos máscaras, corremos para uma padaria, um supermercado, uma cantina e logo batemos em retirada de volta à nossa prisão domiciliar.

Imagino que quando tudo isso passar, vamos sair às ruas, iremos a shoppings, bares, restaurantes, shows, etc. Até aí, tudo bem. Mas onde estão os amigos? Dou uma viajada ao futuro e imagino meu périplo em busca desses amigos:

Chego no Clube de Engenharia e procuro logo por Jorginho Lira. Sempre o encontrei aqui, mas ele não está. Divirto-me muito com seu jeito adoravelmente alvoroçado. Sem ele não tem graça. Assim, prefiro ir para o Camarões e me encontrar com Beto Cortez, conversar e tomar meu whisky enquanto ele degusta um vinho. Ele também não está. Puxa vida! Tanta coisa eu tinha para dizer e ouvir desse amigo de infância. Vou para outro lugar.

Pensei em Kleber Açucena e Roberto Curioso e me mandei para a Confeitaria Atheneu para tomar um chopp com eles. O papo é sempre bom. Mas eles também não estão. Olho em volta e sinto uma espécie de solidão.

Num alento, liguei para Marcelo Dieb, meu primo e amigo. Quem sabe ele topa ir ao Bella Napoli? Vamos beber e comer ouvindo o piano de Manoel até o nascer do sol, e depois vamos para o Mercado Petrópolis. Ficaremos naquele mezanino e ele dedilhará o violão. Pode até ser que o Nêgo Véscio apareça para cantar um bolero. Mas o telefone só chama. Sem resposta.

Vou para casa dormir e amanhã, que é sábado, vou a Pirangi. Acordei cedo e peguei o rumo de lá. O mar estava bonito, o sol brilhava no meio do céu azul. Tudo muito agradável. Gosto de ir para lá e curtir o jeito engraçado e divertido de Kátia Dore. Mas ela não estava lá. Sem saber o que fazer pensei em Tutu e Henrique. Não adianta ir me juntar à turma do Nordestão da Prudente de Morais. Tutu e Henrique não estarão lá.

Senti que a verdade crua começava a me rondar. Desolado, sentei-me num bar qualquer e, sem esperar ninguém, tomei o whisky sozinho. Aos poucos fui me lembrando dos acontecimentos durante a pandemia. Esse vírus não deixou sequelas somente naqueles que foram contaminados. Atingiu a todos nós. Ficamos frios, passamos a encarar as perdas como fatos comuns.

Só agora, quando tudo passou, sinto a dor da saudade de cada um desses amigos que partiram e sequer fui a velórios ou sepultamentos. Nem para dar um aceno de “até logo”. Choro agora por todos. O mundo ficou triste e sinto que a vida e a morte passaram por mim e eu, completamente dormente, nada percebi.

Essa foi minha “viagem”.

Pois é. Quando tudo isso passar, só restarão lembranças, nada mais. Nada a fazer. Olho agora para o Céu e disparo um beijo e um apertado abraço em cada um desses amigos que se foram encobertos pela névoa que, de tão densa, envolveu até nossos corações.

Quando tudo isso passar, quero sofrer menos e me divertir mais. Chega!

− Garçom, outro whisky e aumente a música! Traga mais cadeiras porque essa mesa logo estará plena de amigos que logo virão e que são partes de mim.

Compartilhe:

Comentários (29)

  • Débora Torquato Responder

    Que texto lindo! Obrigada pelo carinho para como Jorge. Amigo e colega que sempre compartilhavam conversas e risadas!

    14 de junho de 2021 at 14:09
  • Alexandre Magno de Montenegro Miranda Responder

    Perfeito. Que tal agradecer à Deus por tudo aquilo que conseguimos ter ou chegar? Pense nisso. Gratidão!!!

    7 de junho de 2021 at 05:58
  • Rosália Curioso Responder

    Belo texto! Fiquei triste e emocionada . Tocou na minha alma e deve publicar . Posso colocar no Face?

    6 de junho de 2021 at 20:49
  • Regina (EC) Responder

    Excelente texto e muito verdadeiro.

    6 de junho de 2021 at 20:48
  • Márcia Henriques (Marista) Responder

    Lindo lindo e lindo .
    Verdade em tudo. Vamos voltar aos lugares e não encontraremos nossos amigos.
    Minervino você com sua veia de alta sensibilidade mexe nas nossas emoções lá dentro e nossos olhos lacrimejam.
    Parabéns amigo por tamanha beleza!

    6 de junho de 2021 at 20:48
  • Paulo Bóia (Marista) Responder

    Excelente texto Minervino, parabéns pela sensibilidade para materializar em palavras esse sentimento doído que se chama saudade dos amigos que se foram. 👏👏👏👏👏👏👏

    6 de junho de 2021 at 20:47
  • Edilson Assis Responder

    Maravilhoso texto! Com relação ao último parágrafo, me convide. Rsrs

    6 de junho de 2021 at 20:47
  • Beto Coronado Responder

    Adorei !
    Esperemos que a lista , abruptamente , pare !
    Quando tiver nessa mesa , ligue prá mim…….
    Abraço !

    6 de junho de 2021 at 20:46
    • Alexandre Magno de Montenegro Miranda Responder

      Perfeito. Que tal agradecer à Deus por tudo aquilo que conseguimos ter ou chegar? Pense nisso. Gratidão!!!

      7 de junho de 2021 at 06:00
  • Cristina Daltro Responder

    Bela reflexão do que será o amanhã.

    6 de junho de 2021 at 20:46
  • Lelê Responder

    Amei! Desse jeito mesmo! Estaremos um pouco órfãos de tanta gente singular!

    6 de junho de 2021 at 20:45
  • Wilson Cardoso Responder

    Pode guardar minha cadeira, amigo Minervino. Estarei com você pra lhe dar AQUELE ABRAÇO!

    6 de junho de 2021 at 20:45
  • Socorro Mariz Responder

    Lindo texto !!
    O que me entristece quando isso passar vai ser a indiferença, a frieza e a falta de empatia das pessoas.

    6 de junho de 2021 at 20:44
  • Rosário Saraiva Responder

    Está na minha memória todo esse seu texto, que dura realidade. Parabéns por invadir a nossa alma e decifrar essa dor.

    6 de junho de 2021 at 20:44
  • Coelho (Goiânia) Responder

    Sequelas ficarão com certeza, mas precisamos ter fé em Deus e continuar, muito difícil mas não impossível, tvz passemos à valorizar mais, pequenas coisas, amigos e familiares. Deus nos mostre o caminho.🙏

    6 de junho de 2021 at 20:43
  • José Herts Responder

    Badé, quando tudo passar, vamos reencontrar o amigos que restaram! E são muitos! 👊

    6 de junho de 2021 at 20:43
  • Anne Mildred Dore Responder

    Que legal amigo!
    Vou fazer com que ele leia. Pode deixar.
    Obrigada pela lembrança e pela forma carinhosa como sempre se dirige a nossa família. Mas a reciproca é verdadeira. Parece que guardamos lembranças da nossa infância , que foram cultivadas pelas nossas mães e até hoje permanecem latentes em nossos corações.
    Li sua crônica acima e achei linda e posso endossar que dona Marta foi essa mãe grandiosa que preencheu todas as lacunas deixadas pela ausência do seu pai.
    Um grande beijo

    6 de junho de 2021 at 20:42
  • Marcelo Silva Responder

    Amigo. Parabéns. Infelizmente vivemos um momento de incerteza. Abraços!

    6 de junho de 2021 at 20:42
  • Juliana Carrilho Responder

    Bem assim Badé…
    Que possamos viver momentos HOJE..o amanhã pode n chegar e o futuro quem saberá?

    6 de junho de 2021 at 20:41
  • Agamenon Elias Responder

    Show amigo, nota 1000, essa canhotinha de ouro é fera.👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

    6 de junho de 2021 at 20:41
  • Celso Cruz Responder

    Palmas

    6 de junho de 2021 at 20:40
  • Cristina Galvão Responder

    Palmas

    6 de junho de 2021 at 20:39
  • Ernani Lira (Marista) Responder

    Palmas

    6 de junho de 2021 at 20:39
  • Zaira Botelho Responder

    Palmas

    6 de junho de 2021 at 20:38
  • Gadelha (Marista) Responder

    Aplausos.

    6 de junho de 2021 at 20:38
  • Adonis (Marista) Responder

    Aplausos

    6 de junho de 2021 at 20:37
  • Aninha Elali (Marista) Responder

    Aplausos

    6 de junho de 2021 at 20:37
  • Faiçal (Marista) Responder

    Excelente

    6 de junho de 2021 at 20:36
  • Josimar (Currais Novos) Responder

    Palmas!

    6 de junho de 2021 at 20:35

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.