
Novo filme da franquia traz um vilão esquecível e um roteiro furado, mas a sequência no trem é um espetáculo de ação.
Há uma grande ironia no fato da vilã principal de “Missão: Impossível – Acerto De Contas Parte 1”, que estreia nesta quarta (12) em quase todo o planeta, ser uma Inteligência Artificial apelidada de A Entidade.
Essa mesma Entidade parece ter escrito o roteiro do sétimo longa da série cinematográfica estrelada por Tom Cruise no papel do agente Ethan Hunt e creditado o diretor Christopher McQuarrie e o roteirista Erik Jendresen para não ser descoberta pelo Sindicato.
A trama parece o resultado de um pedido para o ChatGPT: “Me faça um filme de ação com elementos de “Transcendence: A Revolução”, mas para ficar melhor, jogue inspirações de “Exterminador do Futuro” e as sequências de ação de ‘Velozes e Furiosos’”.
Voilà.
Ethan Hunt (Cruise) lidera seu time de agentes formado agora por Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg) na busca por duas partes de uma chave que, reunidas, dão acesso a algo que ninguém sabe o quê, mas que significa o controle de uma Inteligência Artificial tão poderosa que foi capaz de destruir um submarino russo invisível.
Por alguma razão menos explicada ainda, uma das metades da chave vai parar nas mãos de Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), a ex-agente do MI6 e assassina mercenária que se bandeou para o lado de Hunt nos longas anteriores. A IMF consegue recuperar uma metade do Santo Graal… ops, da chave e tem a oportunidade de fechar o mistério com um comprador que vai embarcar no aeroporto de Abu Dhabi sob a vigilância de Hunt.
O problema começa quando Grace (Hayley Atwell), uma ladra, consegue por as mãos na chave e foge com ela, algo que leva os heróis para Roma e para mais uma perseguição de carros e motos nas ruas (intransitáveis) da capital italiana.
Sendo justo, McQuarrie consegue fazer algo bem mais inventivo e divertido que “Velozes e Furiosos 10”, principalmente quando Tom Cruise precisa dirigir um minúsculo Fiat 500 amarelo (homenagem ao “Lupin” de Miyazaki?) com Atwell a tiracolo. Uma dose de humor pastelão muito bem-vinda à série.
Com Atwell ao lado (ou não) de Cruise, eles precisam combater a tal Entidade que usa um humano que, do nada, tem ligação com o passado de Hunt antes dos seus tempos de IMF. Gabriel (Esai Morales) tem tanta personalidade quanto um bule de chá. É mais um da longa lista de assassinos que se comportam com gentileza e charme que surgiram após interpretação de Christoph Waltz em “Bastardos Inglórios”.
Tudo em “Acerto De Contas Parte 1” é sofisticado, da fotografia de Fraser Taggart à trilha sonora de Lorne Balfe, pupilo de Hans Zimmer, passando pela participação de Vanessa Kirby.
Talvez isso torne a urgência imperceptível do roteiro ainda mais evidente. A AI tem poder para algumas coisas, mas não para outras. Os mesmos furos podem ser percebidos sobre os agentes americanos, que mudam de lado como um certo ex-presidente mudava de camisa de time.
E haja exposição. A sensação é a de que estamos ouvindo discursos repetitivos sem muita importância além de explicar a trama para nos distrair do que importa: as cenas de ação.
Mas até elas não repetem a porrada no estômago dos outros trabalhos de McQuarrie na série, principalmente “Efeito Fallout”. Em determinados momentos, parece que foram mal editadas e são cortadas antes do clímax -caso da famosa cena de Tom Cruise pilotando uma moto até saltar de uma montanha nos Alpes austríacos.
Mas os 30 minutos finais do filme valem o ingresso. A sequência inteira no Expresso do Oriente é absurdamente visceral e bem coreografada. É uma lição de como se filmar ação mesmo usando um dos maiores clichês do cinema (briga no/sobre o trem).
Entendo a boa vontade em querer que “Missão: Impossível” vire o sucesso do verão. As bilheterias precisam, os críticos parecem atingidos pelo bombardeamento de notícias glorificando os atos de Cruise como dublê em cenas perigosas e as pessoas torcem pelo astro como se fosse a última esperança do cinema.
O que não é verdade.
Isso se chama marketing.
Antes de “Top Gun: Maverick”, Tom Cruise sofria para fazer seus filmes renderem o suficiente para fecharem no verde. Ele é superinteligente, apostou no mercado internacional, menos informado sobre suas ligações com a Cientologia quanto nos EUA. Deu certíssimo. Hoje, ele colhe os louros.
“Missão: Impossível” é uma franquia rentável, mas longe de ser uma potência como a Marvel -seu filme de maior bilheteria chegou aos US$ 790 milhões no mundo todo.
Se posicionar como defensor do cinema foi uma sacada de mestre de Cruise, um astro que conheço bem de cobrir filmagens na China e EUA de “Missão: Impossível”, de entrevistas em Viena e de eventos no Brasil ao longo destes anos trabalhando em Hollywood.
Um sujeito fora de série, um dos últimos astros à moda antiga de Hollywood e, fora essas ligações com um culto extremamente controverso, para dizer o mínimo, alguém que a indústria respeita como poucos e só tem elogios.
Mesmo assim, será difícil repetir o fenômeno de “Top Gun: Maverick”, que carregou outros atrativos para o público, como o senso de patriotismo e a nostalgia. Se isso acontecer, ficarei bastante surpreso.
Mas vai render sua graninha boa.
E mais uma sequência no ano que vem.
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