Para desespero dos machistas, filme-evento de Greta Gerwig obteve a melhor estreia de 2023 e continua batendo recordes.

Quando “Batman”, de Tim Burton, estreou, em 1989, milhares de garotos formaram filas ao redor dos cinemas. Duas trilhas sonoras foram lançadas, uma com músicas de Prince, outra com a incidental de Danny Elfman. Pôsteres, clipes em programas de TV, brinquedos, roupas, fantasias. Era morcegão por todos os lados.
Quando “Matrix Reloaded” saiu, em 2003, os multiplexes pareciam encontro de espiões da puberdade vestidos de sobretudos, roupas de couro e óculos escuros comprados no camelô mais próximo.
Quando “Star Wars” retornou (infelizmente) do mundo das franquias semimortas, adolescentes se vestiram de roupão e empunharam pedaços de cano como se fossem samurais do Japão feudal.
Posso continuar citando exemplos de eventos similares até o espaço desta newsletter acabar.
O fenômeno “Barbie” está sofrendo ataques por gerar EXATAMENTE a mesma coisa.
“Barbie” é um fenômeno. Um fenômeno feminino. As pesquisas do CinemaScore nos Estados Unidos revelam que 68% do público do filme foi formado por mulheres. Isso é tão raro quanto necessário em blockbusters de férias.
Não adianta barbudão procurar diminuir o feito. Não adianta os caretas se chocarem com o subtexto progressista. Não adianta marmanjo raivoso ficar com raiva por ter se visto de certa maneira na telona -ao fazer isso, na verdade, ele só dá razão ao filme.
“Barbie” é um fenômeno pop que não víamos havia algum tempo. Principalmente por não ter uma vida passada nos cinemas.
É um filme de boneca, sim. E daí? “Transformers” também era e ninguém reclamou na época. “GI Joe” também era e vimos o fiasco que foi.
As mulheres têm mesmo que se vestirem de rosa ou de como quiserem para celebrar esse marco. E o fato de uma garota ir aos cinemas de rosa, não significa que ela é alienada ou boboca.
Pode encher o saco, pode. Mas é um pequeno preço.
O mais legal é que o filme faz questão de lembrar que não é um tratado socioeconômico ingênuo.
Ele sabe exatamente o que é: uma comédia com pitadas de sátira e auto-ironia bancada por um grande estúdio e sobre um produto de uma empresa com um valor de marcado de US$ 7,5 bilhões. Discutir relações patronais, o mal do capitalismo extremo e a propaganda de uma empresa fica para quem escreve.
Engraçado que ninguém traz as mesmas acusações quando vê, por exemplo, “Assassinos da Lua das Flores”, de Martin Scorsese, bancado por uma corporação trilionária. Não vi tamanha comoção quando “Uma Aventura LEGO” passou nos cinemas.
Tudo faz parte de um plano para diminuir um feito de uma mulher, protagonizado por uma mulher, com temática femininas e público feminino.
Tenho uma má notícia:
Ninguém faz filme para não ser visto. Todo cineasta quer viver da sua arte. É querer ser muito inocente achar que os estúdios não visam lucro, mas “um mundo melhor”.
As notícias da greve em Hollywood mostram bem isso.
“Barbie” é um fenômeno cinematográfico que trouxe “Oppenheimer” a reboque.
Se não fosse pela disputa que virou o evento do verão e foi muito bem explorado pela equipe de marketing da Warner e Universal, o longa de Chris Nolan nunca teria estreado com US$ 80 milhões no fim de semana nos EUA -US$ 174 milhões no mundo todo contra um orçamento inicial de US$ 100 milhões.
Um número impressionante que, com os igualmente impressionantes US$ 155 milhões de “Barbie”, ajudou a criar o quarto maior fim de semana da história das bilheterias americanas, atrás apenas dos fins de semana dos últimos “Vingadores” e de “Star Wars – O Despertar da Força”.
Você captou a importância do feito de “Barbie”? O “filme de menininha” fez frente a franquias estabelecidas e reconhecidamente impulsionadas por um público masculino.
“Barbie” se tornou a maior bilheteria de estreia de 2023, batendo “Super Mario Bros. – O Filme”.
Greta Gerwig obteve a melhor estreia de uma cineasta mulher na história de Hollywood.
O longa já rendeu US$ 337 milhões no mundo inteiro, mostrando que valeu a pena para a Warner investir US$ 150 milhões (sem contar marketing) no projeto.
Não tenha a menor dúvida: a Warner vai capitalizar ao máximo o sucesso de “Barbie”, com sequências e spinoffs.
E vai ser criticada.
Mas as mulheres precisam dar de ombros.
Ser ridículo, pagar mico em cinemas, ir de grupos grandes às sessões, se vestir de rosa, usar fantasia, esperar por continuações e séries de TV e celebrar um filme com raízes capitalistas não deve ser exclusividade dos homens.
Que venham mais eventos assim.
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Comentário (1)
Boa crítica