A série perfeita para quem tem saudades de “Silicon Valley” (Rodrigo Salem)

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Criadores de “It’s Always Sunny in Philadelphia” fazem comédia no mundo dos games

O que aconteceria se você colocasse “The Office”, “It’s Always Sunny in Philadelphia” e “Silicon Valley” para fazer uma orgia reprodutiva?

Certamente sairia um filhote chamado “Mythic Quest: Raven’s Banquet” ou simplesmente “Mythic Quest”.

A comédia disponível desde o ano passado no Apple TV+ é uma das séries mais engraçadas e politicamente incorretas da atualidade. Pena que não temos mais gente falando sobre ela.

Eu mesmo não me sentia atraído pela ideia na época do lançamento: uma sitcom sobre os bastidores de uma empresa de games prestes a lançar a expansão do seu grande produto, “Mythic Quest”, um MMORPG de fantasia que lembra games como “World of Warcraft”.

Como a segunda temporada estreia em 7 de maio, resolvi dar uma chance à série. E foi a melhor decisão que tomei em 2021, fora não assinar o campeonato Carioca.

No comando do piloto (e de mais dois episódios) está o diretor David Gordon Green, que, entre outras coisas, fez “Eastbound & Down” e “Vice Principals” com Danny McBride, e ressuscitou a franquia “Halloween”, há três anos.

Mas “Mythic Quest: Raven’s Banquet” carrega todo o DNA de “It’s Always Sunny in Philadelphia”. Ambas dividem o criador e o protagonista, o ator Rob McElhenney. Na nova sitcom, no entanto, ele divide os louros da criação com Charles Day e Megan Ganz, também oriundos das trincheiras de “Always Sunny”.

McElhenney interpreta Ian Grimm, o dono, diretor criativo da empresa e criador do game que batiza a série. Ele é egocêntrico como Michael Scott, de “The Office”, mas tem um pouco da alma de Richard Hendricks, de “Silicon Valley”.

E assim como na série cocriada por Mike Judge, os personagens secundários não devem em nada ao protagonista. É cada um melhor que o outro: Poppy Li (Charlotte Nicdao), a chefe de programação brilhante e neurótica; David Brittlesbee (David Hornsby), o produtor inseguro do game; Brad Bakshi (Danny Pudi), diretor financeiro da empresa; e Rachel (Ashly Burch) e Dana (Imani Hakim), as jovens testadoras do game.

E ainda deixei de lado meus dois personagens preferidos da série:

1) Jo (Jessie Ennis), a assistente psicopata de David, que proporciona os momentos mais non-sense da comédia –a cena que ela ataca um streamer de 14 anos é simplesmente sensacional.

2) C.W. Longbottom, um escritor decadente de livros de fantasia que é responsável pelos roteiros do game. F. Murray Abraham, o ganhador do Oscar de melhor ator por “Amadeus”, nunca esteve tão engraçado como um homem mais velho que não consegue se encaixar na cultura woke de hoje.

O interessante é que “Mythic Quest” consegue navegar no politicamente correto de duas formas. Os roteiros conseguem tirar um sarro do exagero da fiscalização cultural dos anos 2020s, mas também adotam o discurso saudável e responsável sem parecer forçado.

O maior exemplo disso é o terceiro episódio, intitulado “Dinner Party” e escrito por Megan Ganz. Nele, a empresa descobre que grupos de supremacia branca estão usando o game para se reunirem e divulgarem manifestos nazistas. Acho que é um dos melhores episódios de comédia dos últimos anos, esticando até onde pode os limites do aceitável: Ian tem um plano para identificar todos os jogadores fascistas que envolve ícones com saudação a Hitler ou badges da SS.

Se você não for conquistado depois desse capítulo, pode desligar a TV ou mudar para “Ted Lasso”.

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