‘Minha mulher terminou com o amante e está sofrendo. Tenho que consolá-la?’: tema de coluna no ‘NYT’ dispara polêmica na web

Imagem meramente ilustrativa — Foto: Freepik/PAGE NPT FOUND

Um artigo recente assinado por Kwame Anthony Appiah, filósofo e escritor que é colunista de Ética da revista dominical do “New York Times” há mais de uma década, gerou um debate nas redes sociais. Ele costuma ajudar leitores a resolver dilemas morais complexos.

Como o que norteou o seu último artigo na coluna “The Ethicist”, do dia 25. Um leitor perguntava se precisava consolar a esposa após o fim de um caso extraconjugal dela.

No pedido de ajuda, o marido explicou que sabia que a esposa estava tendo um caso.

“Ela disse que precisava disso, que lhe dava vitalidade, que desfrutava de uma liberdade sexual que tanto almejava e que sentia que era errado fazer isso em segredo e sem o meu consentimento”, escreveu Appiah, citando o depoimento do leitor anônimo.

“Eu consenti. O que ela disse fez sentido para mim, e ela me assegurou, de forma convincente, que isso não representava uma ameaça para o nosso relacionamento. Ao mesmo tempo, eu sempre sofria quando ela estava com o amante e não conseguia lidar com isso de forma tranquila. Recentemente, ela decidiu terminar o relacionamento porque o fardo emocional para nós dois era muito grande. Mas, enquanto ela está sofrendo com isso, eu me sinto aliviado. Mesmo desejando ter lidado melhor com uma situação que, racional e eticamente, considero aceitável, ela entrou em conflito com algo mais profundo dentro de mim que não consigo mudar facilmente. Minha pergunta é: devo sentir pena da minha esposa? No momento, não sinto. Entendo os sentimentos dela e me importo com ela, mas, ao mesmo tempo, sinto que não é minha obrigação consolá-la por essa perda em particular. O que você acha disso?”

O colunista respondeu:

“Não temos controle voluntário sobre nossas respostas emocionais, pelo menos não de uma forma direta. Você está feliz; ela está triste. E nenhum de vocês pode simplesmente escolher sentir o contrário. Pelo que você diz, parece que ela desistiu do caso por você e pelo relacionamento de vocês, assim como você consentiu por ela e pelo relacionamento de vocês. Provavelmente, você sentiu que não tinha muita escolha a não ser ceder ao que ela queria e, com o tempo, ela pode ter sentido que também não tinha muita escolha a não ser ceder ao que você claramente queria. O relacionamento de vocês não teria dado certo, você talvez tenha pensado, se você tivesse negado o seu consentimento; não teria dado certo, ela talvez tenha pensado, se ela tivesse insistido. Sob a aparência aveludada da doce racionalidade, escondia-se o aço cortante de ultimatos não ditos.

Mas, embora seu alívio não seja surpreendente — e embora você não possa simplesmente decidir sentir o contrário —, talvez você possa ajudá-la a lidar com a perda, em gratidão pelo reconhecimento tardio das suas necessidades? O consolo é uma das dádivas do amor conjugal. E consolar alguém que você ama quando essa pessoa está sofrendo não exige que você compartilhe dessa dor.

Ainda assim, essas distinções podem ser difíceis de perceber na prática. Por isso, talvez valha a pena vocês dois conversarem sobre isso com um terapeuta. Nenhum de vocês conseguirá controlar seus sentimentos instantaneamente, mas pode ser útil dar vazão a eles, de uma forma que ajude a manter a conexão entre vocês.”

'Deixei a minha esposa ter um caso. Tenho que consolá-la agora que terminou?' — Foto: Reprodução
‘Deixei a minha esposa ter um caso. Tenho que consolá-la agora que terminou?’ — Foto: Reprodução

O caso acabou viralizando. Muitos questionaram a “moral” expressa na resposta no colunista.

“Não sei como me expressar sobre isso, mas sinto que as pessoas costumavam ter a decência de não expressar essas coisas”, postou um internauta no X.

“Imagine admitir que você é um corno”, opinou um outro.

“Precisamos resgatar a vergonha”, escreveu um terceiro, acrescentando que as pessoas “compartilham demais os detalhes das suas vidas”.

“A imoralidade é celebrada e os padrões éticos estão agora invertidos”, esbravejou um usuário do X.

“Gosto do Appiah, mas por que ele se deixa explorar para satisfazer o fetiche de humilhação desse homem?”, questionou mais um.

Outros, entretanto, acharam a questão levantada pelo leitor um tema pertinente para a discussão sobre relacionamentos:

“Isso é bastante comum em muitos casamentos. Não finjam que não sabem. Ambos os parceiros podem trair, e muitas vezes o outro sabe, mas prefere não falar sobre o assunto.”

“E o amante da esposa dele? Ele não recebe nenhum consolo?”

“Nossa, que reviravolta emocional. Eu simplesmente não consigo. Quer dizer, por que ter um relacionamento? Ou talvez você só se beneficie porque quer alguém.”

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