“VIVER, COMO SE FOSSE ETERNO, COMO SE O FUTURO FOSSE AGORA, COMO SE A VIDA FOSSE SEMPRE BELA” (ESTEVÃO LÚCIO)

Foto ilustrativa: Bastian Weltjen by Getty Images

Emocionante e reflexivo o depoimento do arquiteto e amigo Estevão Antônio Lúcio dos Santos, que lutou e venceu a verdadeira guerra travada contra a Covid-19.

Minervino Wanderley

Segue:

Viver, como se fosse eterno, como se o futuro fosse agora, como se a vida fosse sempre bela.

E assim, depois que a Covid me pegou, me derrubou e apagou temporariamente a minha consciência, renasço inteiro para a vida que me atrai, me segura e me mantém ainda mais apaixonado pelos dias, pelos amigos, familiares, pela simplicidade do cotidiano.

Na realidade não lembro, nos dias de internamento, intubação, coma e ressuscitamentos, de ter sentido dores, sofrimento, medos.

Nesse recomeço sou como um livro, já iniciado, mas cheio de páginas a serem rabiscadas.

A mente é livre, os sentimentos originais, sem cabrestos. Intensos.

Livres de autocrítica, seguem puros, porque não sei como parar. Guardo-os, no entanto, por não saber ainda como lidar com eles. A única verdade que tenho é a certeza que devo tentar um jeito novo de encarar a vida. Simplicidade é a meta. Autenticidade é o exercício diário.

Amo a vida no presente e amo certo, sem receios da morte. Não tenho medo dela, mas confesso o desejo de ficar por aqui, por muito tempo ainda.

Percebo a vida como uma dádiva, que me presenteia com passes de mágica a cada instante.

Há tempos andava refletindo sobre o significado da existência e hoje esse sentimento ganha um sentido lógico. Vive-se num tempo de realidades cruas, de verdades individualistas, de convicções fechadas, como se a vida fosse definida em dois lados estáticos. É preciso cuidado para não se deixar impregnar pela morbidez depressiva e masoquista, cada vez mais intensa, em grande parte da humanidade.

Parece que não se tem mais vontade e nem tempo de tentar ajustar os acertos e consertos da convivência social. Parece que se desaprendeu a respeitar as opiniões diferentes de cada um. Parece que cada um se tornou a personificação da verdade e que não existe a possibilidade da dúvida. Parece que se esqueceu que o afeto é maior do que qualquer diferença.

Hoje, algum tempo depois que despertei, atordoado e sem entender completamente o que tinha ocorrido, lembro de ter me agarrado na vontade de assegurar o milagre que me deixou sobreviver. Aos poucos fui tomando consciência e mantendo contato com as minhas emoções adormecidas.

Na verdade, a vida esteve sempre presente, mesmo no silencio da minha voz de coma, representada, na minha criação onírica, por um pequeno e suave mensageiro andrógino, de pele dourada, badana preta cobrindo a cabeça, e que me olhava com olhos sem íris, me acariciava, sem palavras. Eu sabia que a liberdade estava próxima e pedia pra ele me tirar daquele lugar. Ele só me olhava e saia suavemente. De onde eu estava inerte, podia ouvir vozes, como se houvesse outros espaços e outras pessoas vivendo livremente as suas rotinas domésticas. São tantas imagens que não caberiam nesse texto particular. Eram esses os meus elos com a vida consciente.

Tentei fugir daquele lugar algumas vezes, mas a inércia do corpo não permitia nenhum movimento, afora o dos olhos e do pensamento. Esses foram os únicos momentos de desconforto.

Quando despertei senti as incertezas e inseguranças de um corpo frágil. Quando me vi no espelho, já fora do hospital, não me reconheci, mesmo assim sorri pra mim e agradeci, enquanto pensava: Seria eu ainda o que era antes?

Deveria recomeçar de um marco zero? Mas como, se já havia um registro de vida que aos poucos emergia? Quem sabe o tempo não se encarregaria de me mostrar caminhos mais reais, certezas mais plenas, possibilidades serenas.

Onde a coragem dos idealistas que vão à luta, destemidos, pelos seus objetivos? Onde os objetivos, quais os objetivos?

Na impossibilidade de construir fatos, resgatei lembranças de coisas e afetos vividos.

Nos recortes de pensamentos e emoções daquele tempo, confesso que não sabia o que fazer com o tempo que me fora dado de presente.

Procurei não sentir a tristeza de saber das tantas impossibilidades de realizações que certamente viriam.

Agora busco uma paz que talvez não mereça, ainda, na minha caminhada evolutiva. Mas uso da razão que me traz a sabedoria de ser feliz, mesmo nas adversidades do cotidiano.

Por isso, escrevo, falando comigo mesmo, arrumando o pensamento e separando fantasias de realidades, para quando a vida virar cotidiano eu esteja livre para o novo tempo, para as novas responsabilidades materiais, afetivas e espirituais, para a descoberta de formas leves de cumprir compromissos e simplificar a vida.

E então

Levantei-me e parti

Percebi que chegou a hora de deixar o passado no seu lugar sem futuro e que nada mais havia ali que pudesse alegrar os dias

Não carreguei sonhos antigos

Nem pretensões vazias

Apenas segui cheio de gratidão

Pela vida que me mostra novos caminhos a cada dia.

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Comentários (4)

  • Beth Raulino Responder

    Muito obrigada, meu querido amigo por suas palavras, que me emocionaram aqui. Meus parabéns pela sua linda lição de vida. Forte abraço!

    16 de setembro de 2021 at 09:28
  • Beth Raulino Responder

    Estevão amigo, que maravilha de depoimento, sinceridade, lição de vida, de coragem. Fiquei emocionada com seu relato e com sua visão de futuro após ter enfrentado tao dura batalha! Gratidão, querido amigo por compartilhar suas sábias reflexões. Forte abraço e até breve! Vamos brindar a vida assim que for possível ❤️

    14 de setembro de 2021 at 20:32
    • Estevao Lucio Responder

      Obrigado querida Beth!
      Por esses dias andei refletindo sobre a sua grande influência na minha formação profissional. Você trouxe, para uma escola de arquitetura embrionária, a visão ampla de um mundo plasticamente ilimitado. E tudo a partir do barro transformado em formas de estéticas várias. A descoberta das muitas possibilidades da comunicação gráfica, visual, humana, também teve a sua batuta como guia.
      São muitas coisas a agradecer e muitas a comemorar. E vamos!
      Abraço carinhoso

      15 de setembro de 2021 at 09:30
      • zezito Responder

        Maravilhosa carta/depoimento que merece ser seguido!

        15 de setembro de 2021 at 10:53

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