CINEMA VIRTUAL EM UM MUNDO REAL (NEWTON RAMALHO)

REPRODUÇÃO

Quando a pandemia nos atingiu no início de 2020, o impacto do confinamento atingiu duramente a maioria das pessoas. Para nossa sorte, nos dias de hoje a internet é onipresente, e tudo relacionado ao entretenimento, lazer ou cultura, pode ser acessado virtualmente, até mesmo pelo celular. Tudo? Na verdade, essa oferta tem algumas limitações, principalmente para algo que não seja o lugar comum.

Há pouco mais de duas décadas, para se assistir um filme era necessário a película no cinema ou uma fita VHS em casa, para fotografar, uma câmera com filme negativo ou slides, para ler um livro, o bom e velho exemplar em papel, e para a música, a disputa ainda era entre o LP, a fita cassete e o recém-chegado CD. Eu ainda mantenho alguns destes itens em uma caixa, para um dia mostrar aos meus netos as antigas “novas” tecnologias.

A evolução tecnológica transformou tudo isso, à medida que tudo, filme, foto, música e livro foram convertidos em formatos digitais. A internet cada vez mais veloz, a expansão das memórias, o poder de processamento sempre crescente, e a convergência tecnológica fizeram que hoje quase todos os aparelhos sejam multimídia, ou, usando o termo mais atualizado “smart”.

Assim sendo, em um simples smartphone é possível comunicar-se em vídeochamadas, assistir vídeos no Youtube, ler livros, assistir filmes e séries dos serviços de streaming e muito mais. Dá até para fazer ligações telefônicas, imaginem! E olha que ainda nem entramos na era do 5G, que promete velocidades e conexões muito mais poderosas e complexas.

A oferta da internet mais veloz possibilitou realizar o sonho de muitos cinéfilos, o de poder assistir o que quiser sem sair de casa. Para se ter ideia, quando instalei a internet a cabo era necessário deixar o computador ligado o dia inteiro para fazer download de um arquivo de 700 megabytes. Hoje em dia esse mesmo arquivo seria baixado em minutos.

A popularização da internet gerou uma grande demanda pelos downloads ilegais – que eram convertidos em DVDs piratas para quem não dispunha de uma boa conexão. Posteriormente foram surgindo os serviços de streaming, primeiramente com a Apple, que abastecia seus usuários via iTunes, e posteriormente com Netflix e similares.

A pandemia serviu de impulso para um negócio que já crescia francamente, e hoje não só existem concorrentes como Amazon Prime Video, Disney Plus, HBO Max, etc, como também existem fornecedores de conteúdo dentro destes serviços. Por exemplo, dentro do Amazon Prime existem canais que requerem uma assinatura adicional, como Starzplay, Paramount+, Looke, MGM, etc.

Curiosamente, a melhor oferta de internet ajudou a reduzir enormemente o mercado pirata. Para que comprar um DVD player e discos se é possível fazer uma assinatura do Netflix e simplesmente ligar a TV? O mesmo acontece com as músicas, e quase ninguém descarrega arquivos para encher a memória do smartphone, se é muito mais fácil acessar serviços como Deezer ou Spotfy e criar uma playlist.

O mercado de livros digitais, liderado pela Amazon com o seu Kindle, alcançou resultados surpreendentes chegando mesmo ao Brasil, que tem pouco consumo de livros físicos. Apesar de muitos afirmarem que a assimilação em formato digital é pior do que em um livro de papel, a disseminação dos livros em pdf e outros formatos explodiu nos últimos anos, chegando até a ser adotado por escolas e universidades.

A evolução do cinema foi algo bem mais impactante. Muita gente não sabe, mas o cinema tradicional virou digital faz tempo. Ao invés de rolos, os filmes hoje estão em discos rígidos ou são transmitidos via internet. Mesmo antes da pandemia o cinema já havia elitizado e se tornou um programa caro, acessível para as classes sociais mais favorecidas.

O lançamento do DVD e posteriormente do Blu-Ray deixou o colecionador encantado pela possibilidade de ter guardado o seu filme favorito, com boa qualidade de som e imagem. Eu deixei de lado um monte de fitas VHS, expostas a fungos e magnetização do cabeçote, quando chegaram os DVDs, chegando a acumular mais de mil discos oficiais. O que me deixou com um pé atrás foi descobrir que eles também podiam “morrer”, em caso de oxidação da fina película onde estão armazenados os dados.

Com a chegada do Blu-Ray fiquei em um impasse: o que fazer da minha coleção, o que substituir e o que comprar de novo? Resolvi que só compraria os filmes que realmente são importantes para mim, o que implica em mais de trezentos novos discos em casa.

Com a expansão da internet, muitos passaram a considerá-la como o seu depósito de filmes e séries, achando que vão encontrar o que querem a seu bel prazer. No caso dos seriados americanos e filmes blockbusters, não há problema, daqui a vinte anos se encontrarão versões de “Titanic” e “Avatar” nas TVs super sofisticadas que estarão no mercado na época.

O problema será aquela chanchada brasileira ou algum obscuro filme tcheco da década de 70 que se gostaria de encontrar. Mesmo no crescente mercado dos serviços de streaming, os grandes estúdios não lançarão todo o seu catálogo, mas só a pequena parte com retorno financeiro garantido.

De um colecionador para outro, recomendo que não ceda à tentação de liberar espaço de um filme raro e querido. Guarde suas cópias em DVD ou Blu-Ray, e para aqueles que nunca foram lançados nestes formatos, a melhor e mais barata solução ainda é o disco rígido, interno ou externo, portátil ou não. Muitos destes filmes tornar-se-ão raridades em um futuro não muito distante, onde o efêmero e o interessante valerão mais do alguma versão preciosa de um velho filme, que só um amante da Sétima Arte sabe reconhecer.

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Newton Ramalho – colunaclaquete@gmail.com

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