FOR ALL: PARA MIM, NÃO! (DALTON MELO DE ANDRADE)

Este foi um dos primeiros artigos que escrevi. Começo do século, e publicado na Tribuna do Norte. Não sei se vão concordar comigo, mas expressam minha opinião sobre um filme que tenta mostrar o tempo da guerra em Natal. Em seguida:

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Fui ver “For All” com as melhores expectativas, gentilmente convidado pela TV Cabugi, nas comemorações dos seus dez anos (que merecem nossos entusiasmados parabéns). Notícias davam conta do sucesso em Gramado. O assunto, para mim, que vivi aquele tempo, embora menino, mas com a lembrança presente e marcante, era de meu maior interesse. Mas que decepção… Não sou crítico de cinema. Longe de mim pensar sê-lo, um dia. Mas me convenci, mais uma vez, ser impossível acreditar neles.

O que esperava? Claro que não um retrato exato de Natal da época! Mas, pelo menos, um pouco do clima, uma estória (já que não podia esperar uma história), mais plausível e principalmente o que mais nos marcou à todos, a música. Nada disso encontrei. E não estou só. Pessoas que viveram esse tempo, com quem conversamos após o filme, foram unânimes em sentir a mesma falta – o clima, um enredo, a Música.

O clima não estava lá. O mais próximo foi o “black out”. A movimentação da cidade, o tirar a gravata e vestir o “slack” (como se chamava então a camisa por fora das calças), ou seja, o relaxamento dos costumes, mais em termos civilizados, de conforto, de acomodações ao trópico, não surgiu. O tema prostituição foi explorado de forma exagerada e errônea. Havia a prostituição organizada, comercial, paga. A do filme foi inventada, e ainda por cima, exagerada. Quem não conheceu a Natal de então vai pensar que todas as nossas mulheres eram prostitutas, que se entregavam facilmente aos americanos. Um absurdo!

O homem que trabalhou junto aos americanos, que conviveu com eles com honra e orgulho, e sabendo que contribuía para uma causa comum, foi apresentado como um babaca, um “passado p’ra trás”, e, no final, um acomodado, para não dizer um corno. E ele foi, na verdade, um cooperador, um trabalhador, contribuindo para a construção da base, para a sua manutenção, para o seu sucesso, com o seu trabalho correto, esforçado, sério e reconhecido pelos americanos. Muitos foram condecorados e receberam elogios pela sua contribuição. É esse o homem natalense que representa esse período e não o pusilânime, imbecilizado professor de português apresentado ou o cretino cafetão da barbearia ou o traidor covarde mostrado.

Fosse o filme feito por americanos, não acredito apresentariam o povo de Natal dessa forma – mulheres prostitutas e homens acovardados, inferiores. Mas a ignorância sobre o Nordeste é enorme. Sobre a Natal de então, nem se fala! Mas a maior decepção foi a música. Quem viveu aquele tempo, com “Glenn Miller”, “Benny Goodman” e todas as demais grandes orquestras da época, algumas das quais nos visitaram, saiu do cinema decepcionado. Fez falta, e muita falta, e prejudicou de maneira fundamental todo o filme. Até a insinuação de que o nome “forró” vem de “for all” é uma idiotice. Todos sabem que vem de forrobodó.

Como eu, que me lembro daquele tempo, todos que também então viveram saíram do cinema tristes, com o desperdício de um tema rico e mal aproveitado. Dinheiro jogado fora, para mostrar uma Natal que não existiu.

Sobre a música, um comentário final. Mozart Romano, de saudosa memória, grande figura, comentou comigo: dei um CD com todas as músicas que eram tocadas aqui naquele tempo, e nenhuma foi aproveitada.

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Comentário (1)

  • José Augusto Freitas Responder

    Concordo. O cinema documental, assim como a História só tem mentiras

    9 de dezembro de 2021 at 18:34

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