Amor, Estranho Amor (Minervino Wanderley)

Ilustração

O danado do amor, exatamente por ser um sentimento, é uma coisa muito envolta em mistérios. Ninguém sabe quando ele chega, nem muito menos quando parte. É lindo, sem dúvidas, mas é muito esquisito. Muitos de nós já nos confundimos com ele. Todos, com raras exceções, viveram “amores” durante a vida. Ou assim pensam. Muitos têm a convicção de que o “primeiro amor a gente não esquece”. Músicos cantam isso, boêmios adoram falar sobre o assunto, assim como mulheres e homens abandonados não se cansam de lembrar desse “primeiro e único amor”. Particularmente, não creio nisso. Talvez o primeiro beijo, a primeira atração, a primeira cueca ou o primeiro sutiã. Acho que essas coisas, realmente, não se esquece.

Voltando ao amor, a gente nunca sabe na verdade quem foi o “seu primeiro”. Pode ser até que se guarde uma lembrança mais forte de um ou de outro namoro, já que sempre encontramos pessoas marcantes nesse percurso. Sejam elas engraçadas, inteligentes, belas, amorosas, generosas, esses sempre deixam um rastro por onde passam. Isso sem falar nas pessoas mentirosas. Essa turma tem uma habilidade enorme de encantar. Deus me livre.

Mas penso que não devemos ficar matutando sobre fantasmas. O importante é o amor que você está vivendo. Não espere terminar, passar um tempo, e depois se lembrar de momentos, aí, sim, inesquecíveis. É tarde. Mesmo que voltem, jamais será como foi. Lulu Santos já disse: “Nada do foi será do jeito que foi há um segundo. Tudo muda o tempo inteiro.”

Falam que o casamento é a consumação do amor. Nada disso. Muitos amores terminaram porque não resistiram à implacável coexistência. O cotidiano “Todo dia ela faz tudo sempre igual…” é tiro e queda. “Puxa, a gente se amava tanto e agora não sentimos mais nada.” Quantas e quantas vezes esse lamento foi dito? Sabem o porquê? Caíram na armadilha do casamento à moda antiga. É um perigo! As histórias são normalmente parecidas. Mais menos assim:

Depois de uns anos casados, os dois acordam, mal se olham, dão um bom dia protocolar e cada qual vai ao seu banheiro. Depois, como não tem jeito, tomam café juntos, às vezes sem trocar um tostão de palavras. Mais tarde vem o almoço, o jantar e, para piorar, a cama. É aí que onde a cobra fuma, meu irmão. É onde a onça bebe água e a porca torce o rabo. Pense num lugar importante! Outrora palco de tantas “coisas”. Gostosas travessuras, fantasias, tesão no corpo e na alma. A cama era boa demais. Aguentou o rojão todo sem dar um gemido. Também pudera, os gritos de amor amorteciam qualquer som. Aliás, não era só a cama. Tinha o sofá, a mesa do escritório, uma cadeira. Pois bem, agora, esses coitados coadjuvantes não passam de meros móveis. Empoeirados e sem utilidades.

A pobre cama, que era uma autêntica arena, vive agora sempre arrumadinha, e só serve de lugar para os dois dormirem – à custa de remédios, que fique claro. Ele, displicente, já não liga para a barriga que começa a esconder o que um dia foi utilizado para tantas “coisas”. E ela, agora desleixada, veste uma daquelas calçolas e põe uma camiseta por cima antes de enfiar no “seu” lençol. Às vezes se desejam “boa noite”, na impossibilidade de dizerem o que pensam e que é perfeitamente impublicável. E assim, nesse ritmo, vão deixando a vida se esvair.

Ora, meus amigos. Existem maneiras de saber se vocês amam ou não quem está com você. Sabe uma forma extremamente eficiente? A separação. A ausência. A falta. O lugar vazio. Mas cuidado para que vocês não confundam a inevitável solidão de um provável quarto de hotel com a falta que vocês sentem daquela rotina. Tenham coragem e vão viver a vida que vocês achavam que levariam um sem o outro.

Muitos já devem ter dito com ares de gabola: “Ah, se eu estivesse sem ninguém! Faria isso, faria aquilo, uma porrada de coisas. Ninguém me segurava”, murmuram aos seus botões e aos seus espelhos na solidão do banheiro ou naquela ida ao shopping.

Até que um dia vem a separação. Estão tão cansados um do outro que não fazem questão por nada. Discos, livros, tudo perdeu o valor. Ou, pior ainda, viraram objetos descartáveis. Aquela coleção de rock dos anos 70? Tem mais graça pra ele não. Aquele LP de Carole King virou uma chatice para ela. Os livros de Agatha Christie? Que se danem com Hercule Poirot junto! Se tivessem um cachorro, dariam para adoção, sem dúvidas. Não há outra palavra para definir esse melancólico fim: merda!

De uma hora para outra, vocês ficam “solteiros”, mas não fazem porra nenhuma. Com duas, três semanas, aquela saudade começa a bater na sua porta. O cara recua, ela também, e então vem a contagem inversa. Agora contam as horas que faltam para o reencontro. Antes, a conta era para o dia de um ser ver livre do outro. É ou não é? Tem mais uma coisa, caros amigos: torçam para que o orgulho tenha sido levado pela brisa fria das solitárias noites. Voltem do mesmo jeitinho de antigamente. Sabem por quê? Sem querer, vocês entraram numa área de risco. É isso mesmo. As pessoas não são estáticas e seus corações e mentes menos ainda. Se vocês ainda guardam o mesmo carinho um pelo outro, ergam suas mãos para o Céu e agradeçam ao bom Deus.

A convivência é implacável. Tem que ter cuidados. Vocês podem até se amar, mas como disse Alex Nascimento, não há nada mais eficaz para provocar uma separação do que a proximidade. Portanto, sigam a cartilha deste cabra bom, filho de Seu Bráulio e Dona Lourdes! Só um detalhe: façam o que ele diz, mas não façam o que ele faz. Caso contrário, ele não estaria à beira do nono casamento. (MW)

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