UM PAPO COM RAUL (MINERVINO WANDERLEY)

Meu amigo, Raulzito! Você foi um privilegiado, sabia? Viu o mundo mudar todinho. Já eu, não vi quase nada e tem pouca coisa nesse mundo que eu saiba demais.

Não vi Cristo ser crucificado, mas vi muito inocente ser condenado por amor à cruz.

Não vi o amor ser assassinado, mas vi assassinarem em seu nome.

Não vi Maomé cair na terra de joelhos, mas vi as montanhas irem ao seu encontro.

Não vi Pedro negar Cristo por três vezes diante do espelho, mas vi Cristo perdoar por três mil vezes atrás do altar.

Não vi Babilônia ser riscada do mapa, mas passeei em jardins suspensos na terra de Joaquim Nabuco.

Não vi conde Drácula sugando o sangue novo, mas vi o quase morto ficar novo recebendo sangue vivo.

Não vi Zumbi fugir com os negros pra floresta pro quilombo dos Palmares, mas vi o zumbido das palmas quando batiam sem dó no lombo dos negros.

Temos que tentar outra vez, amigo velho.

Tenho fé em Deus e tenho fé na vida. Tenho dois pés para atravessar a ponte e encontrar a água viva que está na fonte.

Vou ser sincero e profundo, quem sabe eu possa sacudir o mundo. A vitória não está perdida, posto que é de batalhas que se vive a vida. Vou tentar outra vez.

Ora, às vezes você me pergunta por que é que eu sou tão calado. Fazer o quê, meu querido?

Não sou a luz das estrelas. Quisera ter a cor do luar. Na verdade, eu sou o medo de amar. Sou a vela que se apaga e sendo os olhos do cego, não vejo quando a lâmpada acende. Quem me dera  ser a mão do carrasco, ser um ser raso, largo e profundo.

Mas não sou nada disso. Sou igual ao blefe de um jogador. Sou um fraco feito de ar, sem água e sem fogo. Sabe a mosca da sopa? Sou eu. O filho que ainda não veio também sou eu. Sou o meio do início que é perto do fim.

Com esse medo que tenho da chuva, vou continuar sendo o maluco beleza, essa verdadeira metamorfose ambulante à procura do ouro de  tolo. Saudade de você, bicho.

Inté.

Obs. Texto baseado nas letras das músicas compostas/cantadas por Raul Seixas. Aos seus parceiros, um grande abraço!

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