CASTELOS DE AREIA (MINERVINO WANDERLEY)

ILUSTRAÇÃO

Palavras são palavras, e a gente
nem percebe o que disse sem querer…

 

Demorei um pouco a entender o verdadeiro significado para ‘castelos de areia’. Quando criança, achava que eram aquelas “construções” que fazíamos na beira da praia. Sempre que estávamos próximos a terminar vinha uma antipática onda e derrubava tudo, transformando a obra em areia. A solução era subir para um local no qual a maré ainda não ameaçava chegar. Mas a rotina era implacável. Quantos castelos fossem erguidos, tantos eram reduzidos a areia pelas ondas.

Com o andar da vida, percebi que esses castelos de areia guardavam muita similaridade com nossos sonhos. Criamos ou imaginamos situações de vida agradáveis, repletas de felicidade, mas vinha a realidade da vida – tal qual a onda – e nos trazia à realidade, transformando nossos devaneios em fumaça. E, da mesma forma, passamos a elaborar novos sonhos e, agora mais espertos, feitos de pensamentos mais resistentes, que pudessem resistir à força desta chata e, às vezes, cruel realidade.

Assim é o amor. Comecemos por nossa (ainda) doce adolescência, quando largamos os brinquedos e passamos e sentir umas ‘coisas diferentes’ no coração. Sem saber muito o que vem a ser isso, naturalmente começamos a nos interessar por alguém. Num cinema, numa festinha, conhecemos uma pessoa, sentimos a atração, nos aproximamos, conversamos, até que, num tácito acordo, firmado pela troca de olhares, ficamos enamorados. Momento em que, se tínhamos dúvidas, passamos a acreditar que o céu existe.

A partir de então, tendo o mais puro e inocente amor como matéria-prima, começamos a construir nossos castelos. Apaixonados, a planta fica rápida num piscar de olhos. Ou, para melhor descrever, quando fechamos os olhos antes de dormir, naquele momento entre o sonho e a (chata) realidade. Sublimes momentos! Assim, com um riso que vem da alma e desponta no canto da boca, começamos a desenhar nosso castelo. Simples, ele toma seu formato: estudar, terminar uma faculdade, conseguir um trabalho bem remunerado, comprar uma casa, casar, ter filhos, netos, bisnetos…

Vou me prender à nossa vida sentimental, quando todo começo é assim. Uns, edificam os seus sonhos bem alicerçados e alcançam o objetivo traçado. Outros, muito embora se amando, não conseguem atingir o alvo. Surgem coisas nos trajetos das suas vidas e desistem desse sonho. Às vezes de comum acordo, usando o honesto e bom olhar como fiador. Terminam o que era “eterno” e cada qual vai em busca de um outro parceiro, à cata do almejado sonho. O implacável tempo passa e, às vezes, já cansados de insucessos na tentativa de conseguir encontrar essa alma gêmea, alguns param de lutar e simplesmente desistem. Sentam-se numa espécie de arquibancada e viram espectadores da vida. Esquecem o que Fernando Pessoa tanto fez questão de dizer: “Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela.” Genial!

Por outro lado, existe uma classe de pessoas que, mesmo considerado “coroas”, continuam com obstinação o seu caminho em busca da construção de seu castelo. Com sorte, sempre casualmente, conhecem alguém e pelo traquejo da vida, percebem que ali está a companhia do resto dos seus dias. Então vem a magia. A vida se transforma, o sol volta a brilhar, a luz do luar mexe com as almas dos apaixonados e eles se entregam a essa dádiva. Sábia decisão.

Lamentavelmente, há “coroas” que encontram seus pares, mas que por motivos fúteis, deixam que as ondas do mar da vida destruam seus castelos. Ciúmes, insegurança, incompreensão, intolerância e outras coisas desse naipe motivam esse fim. Bastava um pouco só de paciência, de entender as fraquezas um do outro, de parceria, e essas ondas seriam rechaçadas. Como não são flexíveis, ambos perdem nesse embate e a vontade de reconstrução fica comprometida. Uma pena. A vida ainda tinha tanto para oferecer, mas optaram por caminhar pela estrada do orgulho que conduz à ferrugem que destrói o ferro; não passa de cupim dizimando a madeira reduzindo tudo a pó. Triste.

É um final no qual todos perdem. Um final de vida digno e feliz trocado por uma solidão só amenizada por um gato ou um cachorro. Visitas esporádicas e rápidas de filhos e netos. E, pior, quando optam pela companhia da garrafa, começam a viver da falsa alegria e do sonho enganador que o álcool proporciona. Isso não é vida.

Portanto, “coroas”, ainda é tempo! Deixem essa timidez de lado, mostrem que seus corações batem forte, mandem o orgulho (vocês sabem para onde) e se entreguem de corpo e alma ao amor – quem sabe o melhor e o último. Vocês jamais se arrependerão de ter tentado. Lutem pela felicidade! Adotem esse lema que um dia me veio à cabeça: “O melhor ainda está por vir!”.

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Comentário (1)

  • Maria Jandir Candéas Responder

    Excelente texto. Parabéns.

    25 de dezembro de 2021 at 15:08

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